Após algum tempo morando em Curitiba, fiquei surpreso pelas filhas de Silvia não conhecerem as ruas em torno de onde morávamos, o que não acontecia comigo na mesma idade apesar de não conseguir andar sozinho. Já não é o caso da mais velha há muitos anos, mas Silvia se recusava a deixar que sua segunda filha – que em certa medida me adotou como um outro pai – caminhasse sozinha pelas ruas por esta ter fotossensibilidade, mesmo após eu a presentear com um bom óculos escuro – mãe é assim. Por outro lado, Clara nunca tinha saído sozinha com uma de suas irmãs. Na última quinta, Silvia viajou para um encontro de procuradores, no dia seguinte inventei de mandar estas duas irem sozinhas tomarem assaí e sorvete e brinquei com minha enteada dizendo “sua mãe só faria isto daqui a alguns anos”. Fiquei apreensivo, preocupado, fiz todas as recomendações cabíveis, mas era algo necessário e deu tudo certo. Contei a Silvia no sábado temendo levar uma bronca, mas ela aplaudiu e as mandou ao supermercado.
O que estava por trás desta atitude é que, devido à minha restrição de locomoção, passei a vida lutando para ir às ruas, ganhar o mundo, ser menos dependente, ter experiências concretas. Também sei que foi um exemplo típico de função paterna – a qual bem que poderia ser renomeada de função de socialização, já que qualquer pessoa pode exercê-la.
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